A missão de James Gunn era praticamente impossível: fazer o público se importar de novo com o Superman. Após uma década de tentativas frustradas de Zack Snyder tentando criar uma nova DC, com filmes sombrios e desconectados da essência dos quadrinhos, o diretor precisava não apenas reinventar o herói mais icônico das revistas, mas também restaurar a confiança de uma audiência cansada de promessas não cumpridas. A boa notícia é que Superman, estreia desta quinta, 10, faz exatamente isso ao abraçar aquilo que sempre tornou o personagem especial: sua humanidade inabalável em meio ao caos.

Dirigido pelo próprio Gunn, diretor de Guardiões da Galáxia, o longa não se enrola contando a história de origem do personagem. Isso, felizmente, é resolvido rapidamente no início, com um contexto prático e direto ao ponto. O foco do novo filme, que tem também a missão de ser um recomeço oficial da DC nos cinemas, mesmo após O Esquadrão Suicida e Shazam!, é contextualizar o que é esse herói e deixar aquele passado de Martha, tons sombrios e pescoços quebrados e afins para trás. É um novo Superman, uma nova DC.
Olhe para cima!
Clark Kent (David Corenswet) trabalha no Planeta Diário e vive uma vida dupla. Não é apenas jornalista, mas também um meta-humano. É esse super-herói muito poderoso que resolve pequenos e grandes problemas da cidade em que vive. Isso vai desde a tarefa de deter um lagarto gigante até salvar um esquilo de ser pisado. Ou seja: faz tudo pensando em evitar que seres vivos se machuquem, mesmo que passe por cima de políticas e políticos.
No entanto, no meio do caminho, dois problemas. O primeiro é a existência de Lex Luthor (Nicholas Hoult), um bilionário que odeia o Superman e quer fazer de tudo para eliminar sua existência na Terra. Inclusive, de olho nisso, passa a questionar as ações do herói e qual é a sua real intenção no planeta. O segundo problema é uma guerra que estoura entre dois países e que Kent insiste em interferir. Quer evitar que ela se concretize, mesmo que isso vá contra sua existência e contra medidas globais de que heróis não devem se meter nisso.
É esse o coração do filme de Gunn. Um personagem não apenas distribuindo socos ou tendo que lidar com problemas de multiversos, mas que precisa enfrentar questões existenciais — mesmo que essas questões sejam interrompidas por um cachorro alienígena mordendo seu calcanhar. Toda a narrativa envolvendo Clark é inesperadamente pé no chão e compreensível a partir de suas dores e incômodos. Ele se torna um herói frágil do ponto de vista emocional: como lidar com a pressão política? Como digerir a explosão de seu mundo de origem? O que ele deve fazer com a mensagem que seus pais deixaram, enfim?
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Superman de verdade
Curiosamente, apesar dessas questões mais profundas, Superman não deixa o filme cair em um tom sombrio. Aliás, passa longe de tudo que Zack Snyder fez antes. As questões são reais e potentes, até com momentos realmente emocionantes, mas tudo não deixa de ter um ar lúdico típico dos quadrinhos da DC. As cores desse universo são mais coloridas e Gunn, como já tinha feito antes, não tem medo de assumir algumas decisões como bregas ou bizarras. Oras, é um mundo em que heróis de collants enfrentam lagartos e afins!
Ou seja: ser brega ou exageradamente emocional em alguns momentos é ponto positivo. O cinema se acostumou com um mundo dicotômico dos heróis nas telonas em que só dois caminhos são possíveis: os dilemas universais, grandiosos e “multiversais” da Marvel Studios ou o lado sombrio (e bastante bagunçado) da DC. Gunn, enfim, se volta ao clássico Superman de Christopher Reeve, ao Batman com mamilos de George Clooney ou ao Coringa de Jack Nicholson para adotar sempre um tom pra cima, exagerado e histriônico.
Ao mesmo tempo, há esse lado emocional que suaviza a narrativa como um todo. É uma receita complicada, mas que Gunn administra bem. A ação nunca sobrepõe o humor. A comédia nunca passa por cima da pancadaria. A aventura nunca é mais importante que os dramas familiares. Ao final, mesmo aos trancos e barrancos, Superman reencontra sua alma e coração com alguma pancadaria, piadas bem colocadas e um drama existencial que faz total sentido para um alienígena que foi enviado ainda bebê para outro planeta.
Guerra e política
Só é preciso observar, apesar do resultado final positivo, que o longa-metragem comete um deslize complicado. Em um momento em que o noticiário da vida real está tomado por notícias sobre conflitos entre Ucrânia e Rússia e, principalmente, entre Palestina e Israel, Superman inventa de falar sobre a guerra entre dois países imaginários. O problema é que não são tão imaginários assim. O país invasor é uma clara releitura da Rússia, enquanto o país invadido é uma espécie de Palestina. Isso causa, de certa forma, um desconforto.

Afinal, pra começo de conversa, esses dois países são elevados ao máximo de seus estereótipos. O presidente russo — que, vamos lembrar, não é russo! — é um babaca total e que parece não ter a autonomia de uma mosca. Enquanto isso, a Palestina imaginária é um grande deserto. Os moradores de Metrópolis (ou seriam os Estados Unidos?) nem entendem como é alvo de disputa. Gunn coloca uma dose da vida real dentro da tela. Isso causa certo desequilíbrio na fórmula como um todo.
Fora, é claro, que é preciso observar como os heróis (todos eles de Metrópolis, vale lembrar) são determinantes dentro dessa guerra, como se Rússia e Palestina imaginárias não pudessem resolver seus problemas. Parece um flashback dos EUA do passado.
Mas, tirando isso, Superman é um refresco no cinema de heróis. Em um momento em que tudo está fora de tom, com heróis simplesmente não encontrando seu espaço nas telonas, Superman surge emocionante, bobo, brega, empolgante, sincero. Não é uma obra-prima, bem longe disso, mas é um filme que funciona e que traz verdade. Em tempos tão atrapalhados da sétima arte, principalmente de blockbusters, esse é um refresco e tanto.