Kiyoshi Kurosawa, mestre na arte de revelar o horror cotidiano que se esconde nas frestas da sociedade contemporânea, tem um novo grande filme para chamar de seu. No novo Cloud: Nuvem de Vingança, ele encontra um terreno fértil para examinar as patologias do capitalismo digital. O que poderia ser apenas mais um thriller sobre golpes na internet se transforma, nas mãos do diretor japonês, em uma dissecação precisa e implacável dos mecanismos que regem nossa economia digitalizada e, por extensão, nossas relações sociais.
A banalidade do mal digital
Estreia desta quinta-feira, 17, o filme nasce de uma premissa aparentemente simples. Yoshii (Masaki Suda), sob o pseudônimo Ratel, é um jovem operário que complementa a renda com trabalhos em e-commerce. Ele decide se aventurar no mundo da revenda online, vendendo produtos baratos por preços inflacionados. Kurosawa, no entanto, utiliza essa trama aparentemente banal como porta de entrada. O filme se torna um comentário muito mais amplo e devastador sobre a natureza corrosiva do capitalismo contemporâneo.

A genialidade da abordagem de Kurosawa reside em sua capacidade de identificar como os golpes digitais funcionam como uma metáfora perfeita para o próprio funcionamento do sistema capitalista. Yoshii não é retratado como um vilão tradicional. Ele é um produto inevitável de uma estrutura econômica que já normaliza a exploração e a especulação. Sua transformação em “Ratel” é menos uma escolha moral do que uma adaptação darwiniana às regras do jogo digital.
Raiva em ‘Cloud’
O verdadeiro horror do filme emerge quando Kurosawa revela como a raiva dos clientes lesados se transforma em algo muito maior e mais perigoso do que simples busca por justiça. A vingança contra Yoshii se torna um catalisador para ressentimentos acumulados que vão muito além do dinheiro perdido. Pessoas que nem sequer foram diretamente prejudicadas, como seu antigo chefe, se unem à caçada, movidas por frustrações pessoais que encontram no jovem um bode expiatório conveniente.
Essa progressão narrativa é particularmente brilhante. Afinal, expõe como o capitalismo digital cria não apenas vítimas diretas, mas um ambiente generalizado de ansiedade e insatisfação. A desesperança de quem busca cartões de crédito para sobreviver, a frustração dos consumidores enganados, o ressentimento dos trabalhadores explorados. Todos esses elementos convergem em uma explosão de violência que transcende qualquer noção de proporcionalidade ou justiça.
A estética da alienação
Kurosawa constrói seu comentário social através de uma estética deliberadamente fria e distanciada. Os personagens são retratados como figuras banais e ausentes, quase espectros de si mesmos, navegando por um mundo que os reduziu a meros dados em algoritmos de consumo. Essa escolha estilística, embora possa inicialmente alienar o espectador, revela-se fundamental para o projeto do filme.
A aparente vacuidade dos personagens não é uma falha narrativa, mas uma representação consciente de como o capitalismo digital dessensibiliza e desumaniza. Yoshii não é um anti-herói carismático nem seus perseguidores são vilões claramente definidos – todos são produtos de um sistema que os transformou em versões empobrecidas de si mesmos. Essa banalidade do mal é precisamente o que torna o filme tão perturbador e relevante.
Uma das observações mais aguçadas do filme, e que é recorrente na filmografia de Kurosawa, é como o absurdo foi completamente normalizado em nossa sociedade digital. Cenas que em outro contexto pareceriam ridículas ou exageradas soam assustadoramente familiares.
A facilidade com que pessoas comuns se transformam em justiceiros online. A velocidade com que rumores se espalham e se cristalizam em “verdades”. A naturalidade com que a violência é aceita como resposta legítima. Tudo isso ressoa com experiências que reconhecemos de nossa própria realidade.
Kurosawa demonstra uma compreensão profunda de como as redes sociais e plataformas digitais não apenas facilitam esses comportamentos, mas os incentivam ativamente. O filme funciona como um espelho desconfortável para uma sociedade que já não consegue distinguir entre indignação justificada e linchamento virtual.
Capitalismo sem saída
O pessimismo de Kurosawa em relação ao capitalismo digital não oferece soluções ou escapatórias. O filme apresenta um sistema em colapso que continua funcionando precisamente porque seu colapso se tornou sua forma normal de operação. Não há redenção possível para Yoshii, nem justiça real para suas vítimas, nem aprendizado para a sociedade que produziu toda essa situação.
Essa ausência de catarse tradicional é uma das qualidades mais potentes do filme. Kurosawa recusa oferecer o conforto de uma resolução moral clara, forçando o espectador a confrontar a realidade de que vivemos em um sistema que não apenas permite, mas requer esse tipo de exploração e violência para continuar funcionando.
Embora a escolha de retratar personagens como figuras banais e ausentes seja conceitualmente justificada, ela cria obstáculos significativos para o envolvimento emocional do espectador. Há momentos, especialmente na reta final, em que a frieza deliberada dos personagens dificulta o investimento emocional necessário. Isso diminui o impacto de certas revelações.
A distância mantida entre espectador e personagens, embora tematicamente apropriada, às vezes funciona contra a própria crítica social que o filme pretende fazer. É um equilíbrio delicado entre comentário intelectual e engajamento visceral, e nem sempre Kurosawa consegue manter ambos em harmonia.
Conversa global
Cloud transcende seu contexto japonês específico para oferecer uma análise que ressoa globalmente. Em um mundo onde golpes digitais, justiçamento online e economia de gig se tornaram universais, o filme funciona como um diagnóstico preciso de patologias que reconhecemos em nossas próprias sociedades.
Suas limitações – principalmente a frieza excessiva dos personagens – não invalidam suas qualidades essenciais. Kurosawa construiu um retrato devastador de uma sociedade que normalizou o absurdo e transformou a exploração em algoritmo. É um filme que nos força a reconhecer que o horror não está nos monstros sobrenaturais. Está nas estruturas aparentemente banais que governam nossa vida cotidiana.
Em tempos de polarização crescente e violência digital normalizada, Cloud funciona como um espelho necessário, refletindo de volta para nós a imagem de uma sociedade que perdeu a capacidade de distinguir entre justiça e vingança, entre crítica legítima e linchamento coletivo. É uma obra que permanece na mente não pelos sustos que oferece, mas pela realidade que revela.