Hot Milk é um filme inegavelmente estranho – e essa estranheza é tanto sua maior virtude quanto seu calcanhar de aquiles. Em cartaz nos cinemas a partir desta quinta-feira, 3, o longa-metragem conta uma história deliberadamente turva. Sofia (Emma Mackey) decide acompanhar a mãe (Fiona Shaw) em um retiro na Espanha, mas não se trata de férias.
O objetivo da viagem é que a matriarca faça um tratamento psicológico para tentar resolver uma eterna dor que sente nas pernas – dor que pode ser tanto física quanto metafórica.

Hot Milk: estreia de Rebecca Lenkiewicz
Dirigido pela cineasta estreante Rebecca Lenkiewicz, mas que já acumula bagagem como roteirista em filmes como Desobediência, Ida e Colette, Hot Milk recusa qualquer concessão à narrativa convencional. Intrincado e deliberadamente lento, este drama independente nunca revela suas cartas completamente, deixando sempre uma tirada na manga.
Há a trama do tratamento materno, a paixão que desponta por uma mulher misteriosa (Vicky Krieps), mas tudo isso orbita ao redor de algo maior e mais indefinível.
O roteiro funciona como um quebra-cabeças sem todas as peças, deixando o espectador à deriva entre o que é realidade e o que é delírio. Mais provocante ainda: a linha entre loucura e lucidez se dissolve, enquanto os fatos se tornam apenas fios narrativos quase imperceptíveis. É um filme que exige do público uma participação ativa, quase investigativa.
A questão psicológica se desdobra como uma maldição hereditária – será que o trauma se transmite exclusivamente entre as mulheres da família? A mãe carrega feridas não cicatrizadas de um passado que se recusa a confrontar. A filha herda essa impossibilidade de se reconciliar consigo mesma. Até mesmo a costureira enigmática de Krieps revela, aos poucos, suas próprias fraturas emocionais. É uma genealogia da dor feminina.
Águas turbulentas
O elenco navega com competência por essas águas turbulentas. Mackey confirma seu talento após o sucesso de Sex Education, construindo uma Sofia vulnerável e magnética. Shaw, por sua vez, é magnética como essa matriarca amarga, de temperamento vulcânico e língua afiada. É uma atriz que só cresce ao longo dos anos. O problema é que, apesar de boas intenções e interpretações sólidas, a narrativa nunca ganha a densidade necessária.
Inspirado no livro de 2016 de Deborah Levy, Hot Milk perde muito de sua essência simbólica na tradução para as telas. Levy domina a arte de retratar mulheres sufocadas por estruturas opressivas. Afinal, já vimos isso na Polônia ocupada em Ida, o conservadorismo religioso em Desobediência ou os abusos em Ela Disse. Sua prosa carrega uma imagética densa, quase onírica.

Mas é justamente essa densidade que se evapora na adaptação. O filme se torna etéreo demais, anêmico, incapaz de desenvolver adequadamente os conflitos internos de suas protagonistas. Em vez de um final aberto que convida à reflexão, Hot Milk termina quase como um grito de desespero criativo. É uma obra perdida em suas próprias ambições.
O resultado é mais um lembrete de que a literatura e o cinema operam em linguagens distintas. Nem sempre a beleza das palavras encontra equivalência na força das imagens. Hot Milk fica no limiar entre a arte e a pretensão, entre a genialidade e a chatice – e, infelizmente, pende mais para o segundo lado da balança.